Por Adriana Abujamra | Para o Valor, de São Paulo

Antônio Fagundes chega ao Tatini’s, nos Jardins, 15 minutos antes do combinado. Era de se imaginar. O ator é conhecido não só pelo ofício que exerce há quase meio século, mas também pela pontualidade. Atrasar-se, para qualquer compromisso, é algo inadmissível para ele, que cita uma frase de Roland Barthes para explicar o motivo. “Fazer o outro esperar é uma prerrogativa de poder, poder que eu não tenho.” E ai daquele que se atrasar, um minuto que seja, para assistir às suas peças. “Simplesmente, não entra.”

Antigamente, a peça só começava depois que o rei estivesse acomodado. Portanto, quem hoje chega após o horário estipulado está, na verdade, comportando-se com supostos direitos majestáticos.

O ator tem o cabelo branco cortado bem rente e um anel de prata grosso no dedo anular da mão direita. Nada de aliança, está solteiro. Aos 63 anos, ele, que já interpretou muito galã na televisão, atrai a atenção de um grupo de mulheres que o esquadrinham, para cochichar em seguida.

Nossa mesa é ao lado de uma janela que vai do chão ao teto e que nos brinda com o verde das árvores de fora. Assim que senta, Fagundes avisa, olhando o relógio: “Tenho uma hora para esta entrevista e um monte de coisas para fazer”. Sua voz é tão resoluta que não adivinho que nossa conversa vai durar mais do que o dobro do prometido e só terá fim quando o restaurante, agora apinhado de gente, já estiver completamente vazio.

“Vamos falando?”, diz já com as mãos no ar chamando o garçom. Fagundes, apreciador de vinhos, dispensa a carta da bebida e pede uma limonada suíça. “Não se bebe antes do trabalho.” Há a ala de atores que pensa diferente e garante que uma boa dose de conhaque com mel antes de entrar em cena faz bem para a voz. Pura balela. “É um perigo. Atuar exige concentração absoluta.” Logo mais, na noite desta sexta-feira, ele estará no palco com a peça “Vermelho”, em que vive o artista plástico Mark Rothko – ícone do expressionismo abstrato – e divide, pela primeira vez, a cena com o filho Bruno, que interpeta Ken, assistente do pintor. O diretor do espetáculo é Jorke Takla e o dramaturgo é John Logan – badalado em Hollywood, onde assinou os roteiros dos filmes “A Invenção de Hugo Cabret” e “O Aviador”.

Patrocínio é uma falácia. Não vem para quem pede, mas para quem os gerentes de marketing querem dar. Atualmente, parece que para os musicais

A peça se concentra na fase em que Rothko está mergulhado em um projeto polêmico, mas rentável: produzir, a peso de ouro, uma série de quadros para a decoração de um refinado restaurante na Nova York de 1958.

Fagundes ainda sente frio na barriga nas noites de estreia. “O dia em que não der, paro de trabalhar.” Revela que veste cueca vermelha. É uma antiga superstição, que, acredita, lhe garante sorte no palco. O garçom surge oferecendo sucos.

Para compor o personagem, Fagundes diz que levou 46 anos, o tempo que tem de profissão. “Não existe um processo único, é sempre resultado do trabalho de uma vida, de uma experiência e busca constante.”

Como as pombas de Pablo Picasso. Certa feita, um comprador indignou-se com o valor que o artista cobrara por uma tela feita em poucos minutos com apenas um traço e aparente facilidade. Picasso, conta Fagundes, teria levado o sujeito a uma sala com uma série de gravuras de pombas feitas por ele.

O homem estava pagando uma fortuna por aquela gravura porque Picasso vinha pintando outras dezenas de pombas desde que aprendeu a segurar os pincéis. “Essa ideia funciona para todas as artes. Qualquer atitude que você toma é resultado da sua história.”

“Vamos pedir?” No lugar do cardápio, aparece Fabrizio Tatini, velho conhecido de Fagundes, para elencar as opções do dia. O ator vai de bacalhau em lascas e pastéis de entrada. Escolhemos o mesmo para não perder tempo e fazer render os minutos da hora prometida.

“Ah, esqueci de falar”, diz Tatini numa meia-volta: “Optando por esse menu, a sobremesa é obrigatória.”

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Fonte: Valor Econômico