O restaurante Tatini é hoje o único lugar de São Paulo onde a “arte” da prática do Réchaud continua fazendo parte do dia a dia.

A coluna desta edição é uma homenagem.

Uma homenagem à arte culinária, a uma família e, sobretudo, a um personagem, o Sr. MárioTatini.

Uma história que começou em Santos, em 1954, quando o Sr. Fabrizio Tatini, pai do Mário e avô do também Fabrizio, ex-publicitário, 50 anos, que é o braço direito do pai no restaurante atual há mais de uma década, abriu o tradicional restaurante Don Fabrizio.

Logo a casa ficou conhecida e recebeu visitas ilustres, como a do lendário cantor americano Nat King Cole, em 1956, quando este veio fazer um show no teatro Paramount, em São Paulo. Em 1958, o jovem Mário Tatini veio inaugurar o famoso Don Fabrizio na Alameda Santos.

Vinte e quatro anos depois o Don Fabrizio foi vendido e, em 1983, inaugurava o restaurante Tatini atual.

Por isso o título “O último dos réchauds”: porque assim como a famosa lenda do índio moicano, nosso personagem principal, além de ser um grande guerreiro, também é um sobrevivente.

O Tatini é o único lugar de São Paulo onde a “arte” da prática do réchaud continua fazendo parte do dia-a-dia. Como ele mesmo diz: “Em casa sempre gostamos de ficar na cozinha, perto do fogão. O réchaud é um pouco da cozinha ao lado da mesa Neste simpático e elegante restaurante da Rua Batataes, sob a supervisão e a cordialidade do Mario Tatini (que afirma que quem escolhe sua roupa diariamente é a esposa) são executados, à frente do cliente, pratos de massas, carnes e camarões em charmosas frigideiras de prata. Muitos destes pratos são flambados, o que agrega um charme incrível a um dos melhores momentos do dia.

Apesar da idade (82 anos), Mário Tatini está sempre entre a cozinha e o salão, elegante e com o olhar perfeccionista avaliando cada prato e cada réchaud.

O serviço da casa pode ser chamado de 5 estrelas com louvor e quem prepara os pratos nos réchauds são os garçons que, para dar conta de tal proeza, são verdadeiros cozinheiros de paletó, no padrão de elegância do dono da casa, que passam 15 ou 20 minutos na frente do cliente fazendo o passo a passo de cada prato. Isto após terem feito uma demonstração das matérias-primas utilizadas na criação.

Até como entrada é possível curtir este show, pedindo o “vôngole no réchaud”. Nos pratos de carne, clássicos como o steak à Diana ou mesmo um strogonoff incrível com direito a uma passada de batata palha no molho nd réchaud são boas pedidas.

Nos camarões, que chegam descascados e lindos à mesa, são várias as opções. Uma criação famosa e aprovadíssima por mim e por Natale Giramondo (que escreve as matérias de viagem desta revista) é o camarão à Marie Stewart. Como diz o nome, além dos graúdos camarões-rosa, só leva ingredientes britânicos. Molho inglês, mostarda em pó Colman’s, flambado no scotch Black and White…

A magia do réchaud é que possibilita ao cliente um melhor reconhecimento dos sabores e dos resultados de suas misturas, isso porque a mesa acompanha detalhadamente a preparação, a ordem e as quantidades de cada ingrediente.

A experiência é tão completa que dá vontade de ficar falando das sensações que essa mistura de visual e de paladar proporciona.

Ambiente do Restaurante durante o almoço

Mas qual é o segredo? Por que os outros restaurantes tradicionais que usavam réchauds abdicaram? Porque a prática requer não anos, mas décadas de treinamento para conseguir formar dois profissionais em um. O cozinheiro e o garçom, numa só pessoa, à altura desta soma de funções em um restaurante de nível.

Aquele da foto que nos atendeu na ocasião desta matéria é o João Henrique, que é o “baby” do time, porque só tem 30 anos de casa (desde 1980). O Mâitre (Jorge) está na casa desde 1968. O simpático José Dias Luna, desde 1966. E por aí vai. Até o manobrista, o “Ximbica” está na casa desde 1968.

Prova que muitos garçons ou cozinheiros, como preferir, são remanescentes do Don Fabrizio da Alameda Santos.

Até mesmo o couvert é simpático e delicado, composto por salsão temperado, vôngoles, um patê delicioso e o verdadeiro pão italiano.

Como não poderia deixar de ser, o barman prepara Martínis e outros drinks “comme il faut”.

Ah! De terça a sexta a casa oferece um meni executivo muito completo. Sou fã da quarta-feira, quando reina o Ossobuco com risoto à milanesa.

Só me resta agradecer à famíliaTatini e, especialmente, ao Sr. Mário Tatini, que muito prazer nos proporciona há tanto tempo e que é a prova viva de que amor e dedicação ao que se gosta é a pura receita da longevidade. Até!

georges@29horas.com.br

 

Tatini – R. Batataes, 558, tel. 3885 7601