Por Catherine Vieira / Para o Valor, de São Paulo

Na tarde quente de fim de verão, Contardo Calligaris está em casa.

Sim, em meio ao encontro de cerca de duas horas – um tempo exíguo com esse psicanalista disposto à conversa -, ele, que nasceu na Itália e viveu em Genebra, Paris, Nova York, São Paulo e mais alguns tantos lugares, se dá conta de que o local onde fica o Tatini, restaurante que escolheu para abrigar este encontro, é provavelmente o código postal mais longevo que já teve. “Esse é o endereço que eu tenho por mais tempo, incluindo a casa dos meus pais; é de longe o endereço mais estável na minha vida”, conta. “São Paulo acabou tendo uma função especial e este lugar – aliás, este restaurante – já existia em 1986. Então é simbólico, digamos assim, sem dúvida.” No prédio anexo ao restaurante está seu consultório e durante um bom tempo também o lugar onde ele morou na capital paulista. Hoje, divide-se entre Rio e São Paulo, por causa do casamento com a atriz Mônica Torres.

O cardápio e o caloroso sotaque italiano de Mário, o dono do Tatini, poderiam levar a uma leitura apressada de que a escolha do local se deve ao fato de que o psicanalista é um homem que busca manter suas raízes. Não é tão simples. Se aos 4 anos ele pediu para falar inglês, aos 14 fugiu para Londres atrás de uma canadense, mais tarde se casou com uma americana e depois esteve em tantos lugares diferentes, não foi, talvez, por acaso. “Meu pai era um resistente antifascista, havia uma certa dificuldade, um conflito na minha relação com a Itália, que quando eu nasci já não era fascista, mas era um país que durante muitos anos tinha perseguido o meu pai, tentado matá-lo. Nasci e cresci num conflito grande com minha própria identidade nacional”, lembra ele, que ficou sem ir ao país natal por anos na década de 90 depois da morte dos pais.

Calligaris em abadia da Toscana: nessa época, ele escreveu romance

A relação, porém, melhorou, não sem alguma ajuda da ficção. Seu primeiro romance, “O Conto do Amor”, também não por acaso, é quase todo passado em Florença e arredores. “Sim, sem dúvida esse livro foi um dos efeitos – eu não sei, aliás, qual é a causa, qual é o efeito -, mas ele certamente é como a minha reconciliação com a Itália”, reconhece.

A ficção, diz ele, tem também esse propósito. “Uma ficção se constrói a partir de pequenos elementos da sua vida, sobretudo aqueles que você não conseguiu costurar direito, porque a ficção serve para isso. Você costura as coisas, de uma maneira ou outra, dá um destino.” E assim nasceu seu livro mais recente, “A Mulher de Vermelho e Branco”.

“Tinha coisas das quais eu estava a fim de falar, algumas experiências suspensas, enigmáticas. Tive mesmo uma paciente que se vestia de vermelho e branco e eu ficava me perguntando se era louca ou não durante certo tempo – mas a história não tem nada a ver [com a do livro]. Eu tive um paciente que foi assassinado e nessa ocasião eu colaborei com a polícia. E também tive, de fato, uma relação com uma refugiada vietnamita nos anos 70, em Paris, então certamente aquela lembrança me inspirou”, conta o criador de Carlo Antonini, personagem central e – mais uma vez: nenhum acaso aqui – psicanalista dos dois primeiros romances publicados e de um terceiro que está sendo gestado.

O psicanalista e Paulo Autran no programa "Diálogos Impertinentes" da TV PUC

“Será sobre a infância dele, que servirá para falar da minha, que aconteceu em Milão”, diz. Nostalgia? Nesse caso, é uma consequência do processo, mas sem traumas. “Fiz um trabalho de revisitar as locações bastante detalhado, e esses lugares que eu revisito têm uma dimensão de nostalgia, sim, mas que nesse sentido é prazerosa, a nostalgia é um afeto muito legal.” Foi nessa infância italiana que seu gosto pela arte e pelas coisas “interessantes” da vida começou a ser forjado. Com uma casa de veraneio em Veneza e sendo o pai ligado à superintendência das Belas-Artes da Lombardia, Calligaris passou a infância imerso nesse mundo. “A relação com a arte?”, retruca ele à pergunta da repórter. “Perguntar isso a um italiano de classe média alta é meio bizarro”, brinca. Reconhecer um móvel ou um quadro europeu, diz ele, pela escola ou o século, é algo que ele não sabe como aprendeu. “Reconheço um quadro, se é de escola sienesa, florentina ou veneziana de maneira automática; se você me perguntar quem me ensinou, eu não saberia dizer.” Faz parte da bagagem.

Em meio a tantas viagens e domicílios distintos, ele acabou se desfazendo das obras mais antigas e hoje se dedica mais aos artistas brasileiros. “As coisas que eu tinha mais antigas, até o século XIX, eu acabei vendendo. O que tenho hoje são obras contemporâneas, quase todas brasileiras”, diz ele, que é um frequentador de galerias.

A contemporaneidade, aliás, é algo, logo se percebe, caro ao psicanalista. Embora não veja problemas em esbarrar num certo tipo de nostalgia, há outros que podem ser menos inofensivos. Se o assunto são as angústias e dilemas da sociedade atual, ele costuma se apressar a dizer que “evita culpar os tempos”. “Quando a gente diz sinal dos tempos, está sempre sendo hipocritamente trágico, como se falasse ‘ah, meu deus, para onde fomos?’. Acho que fomos para um lugar imensamente melhor que os lugares nos quais já estivemos – e estou falando como espécie -; então, não tenho nostalgia de um passado que não vivi nem do passado que eu vivi. É muito melhor ter celular, internet.”

Com Tom Zé, em 2006, no debate São Paulo É Melhor do Que Parece?

Isso não quer dizer que não tenhamos questões próprias de nossa época. A medicalização da tristeza e das angústias, tema já abordado pelo colunista, não estariam entre elas? Porque os antidepressivos e ansiolíticos se tornaram tão populares? “O aspecto pior da medicação talvez não sejam os remédios em si, mas seja o fato de que acabamos tendo uma leitura médica da experiência, tomando ou não remédio. Que se medique a depressão não teria problema nenhum, agora que a tristeza, o luto, a dor não sejam mais experiências e consideradas como patologias, isso eu acho uma loucura”, afirma.

Mas no pano de fundo da questão está algo que aparece no cerne desse mal-estar moderno e é o que Calligaris chama de uma “herança de 200 anos de higienismo”, algo que pode ser mais poderoso até mesmo que crenças religiosas. “A medicina se tornou a disciplina que nos diz como viver muito mais que a religião ou qualquer outra coisa. Tem muito mais pessoas que correm no Ibirapuera ou numa esteira a cada dia do que pessoas que vão para a missa, pelo menos na classe A e B. É a ideia de que você tem que perseguir a sua saúde e as maneiras de fazer isso. O Ocidente inteiro está composto de pessoas que se preocupam com o que comem, ou quantas vezes por dia defecam, ou se preocupam com o ‘check-up’ anual. A medicina preventiva também é uma forma de controle das vidas.”

Com Roland Barthes, na década de 70, em um dos Colóquios de Cerisy, na França

É, enfim, uma obsessão em evitar a morte – essa também, aliás, outra ideia higienista. “Essa é uma ideia absolutamente moderna, do século XIX. Qualquer homem do século XVIII pensa que os valores são aquelas coisas pelas quais vale a pena morrer. Então, tem uma mudança: de repente qualquer coisa vale a pena com a condição que nos permita sobreviver.”

Embora visivelmente não seja adepto da introdução de remédios nos tratamentos – ele não perde a oportunidade de citar, por exemplo, que os antidepressivos têm uma eficácia apenas em 38% dos casos, enquanto simples placebos funcionam em 18% das vezes -, Calligaris descreve como quase infantil hoje a espécie de militância que tinha, como jovem psicanalista, contra o uso de psicotrópicos. Reconhece que muitos de seus pacientes se medicam – porque querem se medicar – e nesses casos prefere ser colaborativo e até indicar um psiquiatra que possa prescrever o que for melhor para o caso. A questão, insiste, é que o uso de remédios se torna uma espécie de emaranhado, no qual se começa tomando uma fluoxetina, mas aí se fica sem sono à noite, então se toma um ansiolítico, que pode engordar, então se acrescenta algo para o apetite e daí por diante até se chegar a um verdadeiro coquetel de medicamentos.

Não tenho a pretensão, ainda menos como terapeuta, de curar o que tem de existencial na neurose ou no sofrimento

Mas, ironia estranha, por que será que justamente neste mundo em que a longevidade se torna um valor tão primordial, não é raro que as pessoas se refiram aos antidepressivos e aos ansiolíticos como remédios que funcionam para aguentar a vida, ou a pressão, o estresse que a vida moderna estaria embutindo no cotidiano? A vida moderna, diz ele, não é a vilã, e os medicamentos não serão a solução. “Se quer resolver mesmo o problema da vida se drogando, então que se use uma droga que funcione, heroína, crack, é melhor levar a sério se o objetivo é ‘aguentar’ a vida com drogas. Há coisas mais eficientes que fluoxetina.” Ironia à parte, o antídoto mesmo para a questão é outro: coragem. “Eu acho que a gente deveria é ser mais corajoso. Em relação às experiências em geral, se lançar mais. É aquela coisa que a gente tenta ensinar às crianças: que elas deveriam experimentar o que elas nunca comeram.”

O que ele observa, porém, sobretudo na experiência do consultório com jovens, é que temos visto muito o contrário disso. Uma sensação de que se sonha pequeno e de que o espírito de aventura diminuiu. “Me acontece com frequência encontrar um adolescente de 15, 16 anos que, quando você questiona o que ele quer do futuro, a resposta é ‘tipo eu tava pensando em, sei lá, fazer um concurso público da Receita Federal, o salário é bom, tem aposentadoria garantida, estabilidade’. São preocupações que seriam bizarras para um adolescente da minha geração. Talvez a gente tivesse também sonhos totalmente fajutos que não iam funcionar, mas a vida também é feita de sonhos desse tipo: ser oficial na legião estrangeira, trabalhar com leprosos, ou nem necessariamente o altruísmo, pode ser qualquer coisa.” E a vontade de arriscar pouco hoje não se limita à profissão, abrange também os relacionamentos desses jovens. “Eu fugi de casa porque me apaixonei. Os meus pacientes adolescentes eu vejo que têm um problema em ter uma namorada em Jundiaí [interior de São Paulo] porque é complicado.”

Calligaris no Tatini: “Quando a gente diz sinal dos tempos, está sempre sendo hipocritamente trágico”

Calligaris não se arrisca a uma discussão sobre as causas do que tem levado tanta gente a um apetite menor pelas experiências e a tanto medo, ansiedade e angústia. Mas admite que a liberdade que experimentamos pode ter parte nisso. “O projeto da modernidade que nasceu no começo do século XIX, depois de longa gestação, deu à luz um projeto individualista, sendo muito claro, em negrito, que individualista não significa egoísta nem nada moralmente pejorativo, mas sim que somos uma das pouquíssimas culturas dos últimos 200 anos para as quais o indivíduo é um valor superior à comunidade, no sentido de que é você quem vai decidir o que é certo ou errado no seu íntimo e isso vem antes das tradições. É o fato, por exemplo, de casar com alguém que escolhemos, em vez de deixar que as famílias combinem segundo interesses. Essa revolução implica um envolvimento subjetivo sofrido o tempo inteiro.”

Há quem atribua a toda essa liberdade o tédio e a depressão que assombram os nossos tempos. “É possível, mas quem disse que a experiência da liberdade deveria ser hipomaníaca ou jocosa? Não. É também uma experiência de perda, de separação, de uma certa solidão quase existencial, isso faz parte da condição humana. Não tenho a pretensão, ainda menos como terapeuta, de curar o que tem de existencial na neurose ou no sofrimento.”

Eu pratico com esforço, no melhor sentido dessa palavra, a tentativa de não perder a dimensão de prazer, inclusive sensorial, na vida de cada dia

Já a busca obsessiva por um estado de permanente felicidade, outra suspeita de sempre, não ganha muito crédito nessa história. O psicanalista, aliás, tem outra desconfiança, a de que essa obsessão não exista de fato e seja mais um conceito vendido aos indivíduos por indústrias como a cultural e a farmacêutica do que algo que eles genuinamente almejam. “É raro receber alguém no consultório que diga que veio me ver porque quer ser feliz. Se alguém responde isso numa pesquisa, acho que grande parte da resposta é produzida pela expectativa. O cara vai dizer exatamente o que ele imagina que se quer ouvir. Não estou promovendo isso como valor, mas acho mesmo que as pessoas querem ter uma vida interessante, não querem ser felizes.”

Se a busca da felicidade for uma espécie de mito, outro seria a angústia de descobrir quais são os nossos reais desejos, esta, sim, bastante comum como motivação da ida ao divã, ele reconhece. A resposta, no entanto, pode decepcionar. “Eu acho que não existe o que a gente realmente deseja, acho até que a psicanálise involuntariamente vendeu essa ideia, mas não está escrito em algum lugar occipital do seu cérebro, em três neurônios, qual é o seu real desejo, aquele que você precisaria encontrar para depois realizar. Tudo bem, a gente recebe esse pedido, mas é totalmente fajuto. O que existe é o exercício do desejo que se dá em situações complexas na interação com o mundo. Então, dizer ‘ah, eu me tornei jornalista, na verdade, porque tinha um amigo do meu pai e poderia ter feito outra coisa, mas tive essa oportunidade’. É assim mesmo, o desejo é assim que nasce; não é: ‘ai, meu deus, qual é o meu desejo?’

Observação do psicanalista: “As pessoas querem ter uma vida interessante, não querem ser felizes”

Nas entrelinhas da conversa, a sensação que sobressai é a de que ele não gosta de mitificações ou de cobrir de glamour grandes questões e filosofias. Bandeiras e moralismos não têm vez no seu discurso, que busca simplificar mais e julgar menos. Ele não é de propor muitas discussões, mas não escapa das perguntas, nas quais às vezes viaja de um tema a outro e às vezes diz: “Bem, me perdi um pouco, mas voltando”.

Entre uma fatia e outra de vitelo, ele relaciona, a meu pedido, seus prazeres, e começa pelo próprio prato. A lista segue com lençóis de fio egípcio, as amizades, o sexo. “Eu pratico com bastante esforço, no melhor sentido dessa palavra, a tentativa de não perder a dimensão de prazer, inclusive sensorial, na vida de cada dia. Me considero, e não acho que seja palavrão, hedonista numa época muito pouco assim. Acho que estamos num dos momentos menos hedonistas da história do Ocidente”, lamenta. “Não vou dizer que, ah é legal, vamos todos voltar a fumar. Mas dizer tipo: hoje não vou transar porque às 5h30 vou correr, porque mais tarde eu vou trabalhar e… Isso é bizarro.”

O sexo, esse prazer tão disponível, continua sendo um tabu. Talvez não tenha sido à toa que uma das colunas de maior repercussão do psicanalista saiu em 2006, quando explodiu na internet o vídeo em que a modelo e apresentadora Daniela Cicarelli transava na praia. O texto dele mostrava surpresa pela polêmica com o que considerava cenas de amor, absolutamente normais. Afinal quantas pessoas já não fizeram sexo na praia? O retorno sobre essa visão bem dissonante do tom escandalizado com que o vídeo foi tratado foi muito positivo e – como sempre, ele revela – bem maior entre as leitoras. São episódios como esse que revelam o quão diferente é a realidade da sexualidade no Brasil da imagem que se tem dela.

Ele, que clinica em diferentes idiomas e países, vislumbra diferenças nas angústias e visões de europeus e americanos (do Sul e do Norte) que se manifestam também na maneira de lidar com a sexualidade. “Na Europa, é muito melhor nesse ponto de vista. No Brasil, tenho a impressão de que o mito da sexualidade tem muito mais a ver com uma certa sensualidade de movimento, da posição do corpo, talvez a cultura de praia, mas isso não faz com que seja uma cultura erótica. É uma cultura sensual, eventualmente, mas o erotismo começa com fantasias e, se possível, com fantasias complexas. Então tem muito mais erotismo no Bois de Boulogne à meia-noite do que em toda Sapucaí durante os dois dias de Carnaval”, diz ele, ressaltando para si mesmo que essa é uma boa frase para “colocar no Twitter”. O microblog, conta, aumentou muito a audiência – ou pelo menos a percepção dela – das colunas semanais. Coisas dos tempos de hoje, que não existiam na juventude do psicanalista, época em que teve aulas com Jean Piaget e conviveu com Jacques Lacan e Roland Barthes (a quem ele adorava). Diante de todo esse histórico de vivências e convivências, é invejável o esforço de, aos 63 anos, não cair na tentação de pensar que bons tempos eram aqueles.

Por Catherine Vieira / Para o Valor, de São Paulo