Fabrizio e seu pai Mario Tatini: família pioneira na valorização de matérias-primas preciosas até então desprezadas, como mexilhões e cogumelos frescos

Descendente do Don Fabrizio prossegue o ofício de tornar irresistível a culinária italiana.

SILVIO LANCELLOTI
Especial

Que motivo tão profundo leva um publicitário brilhante a largar uma carreira de 16 formosos anos para mergulhar em par­te dos negócios gastronômicos de sua família? Entenderá melhor a do­ce razão quem conhecer mais cari­nhosamente o caráter e o temperamento de um certo Fabrizio Ribeiro Tatini, a quem retraio neste texto semanal.

Da sua família, a imprensa paulis­tana já falou bastante. Fabrizio Tati­ni, o avô do rapaz, provinha de várias gerações de hoteleiros quando apor­tou em Santos, em 1954, com a mu­lher Maria e os cinco filhos, Yolanda, Aradan, Dino, Athos e Casemiro, mais famoso como Mário, o pai de meu personagem de agora. Em San­tos, os Tatinis inauguraram um restaurante fenomenal, o Don Fabrizio, o primeiro de categoria fora do eixo convencional São Paulo – Rio.

Antes de ceder à culinária, brilhou na publicidade

De­pois, em 58, com Casemiro/Mário no comando, um segmento da estirpe transferiu-se à capital, bairro do Paraíso, onde abriu uma histórica filial da matriz do litoral.

Coube aos Tatinis introduzirem, no País, relíquias como os pratos per­petrados em réchauds, à frente do freguês. Mas, coube aos Tatinis a va­lorização de matérias-primas precio­sas e impecáveis que o brasileiro ha­bitualmente desprezava, como as vongole, os mexilhões, o linguado, as cogumelos frescos, o creme de lei­te, as massas amanteigadas.

Em 82, no Céu o Don, Mário e seus manos montaram um novo restau­rante, já batizado de Tatini, na Urussuí numa das margens do então inexplorado Itaim-Bibi Logo instalaram um segundo Tatini na região dos Jardins, na Rua Batatais. Mário, o primogênito, homem fascinante pela cultura e pela competência em seu setor, assumiu a liderança do endere­ço da Batatais. Com o tempo, inevitavelmente, o Tatini da Batatais foi suplantando o seu parceiro da Urussuí.

Nesse percurso entre parênteses desenvolveu-se a vida de Fabrizio Ribeiro Tatini. Nascido em 60, entre 78 e 79, simultaneamente ele estudou Direito na PUC e História na USP. Largou os dois cursos para aprender comunicação na Fiam. Em 80, fun­dou um bar jovem na Rua Teixeira da Silva, extremo sul do Paraíso, mescla de lanchonete com flipera­ma “Foi um fracasso”, Fabrizio rela­ta rindo, aliviado, até.

Seu instinto, daí, passou a orientar seu rumo. Criativo, já redigia muito bem. Eu me recordo de contos seus que Mário, às escondidas do bambi­no, me exibiu em 82. Eram espetacu­lares. De um lado, os meus aplausos, profissionalíssimos, confortaram o pai. De outro, no entanto, Mário se entristeceu. Queria o filho no restau­rante. Naqueles idos, Fabrizio desco­briu o sonho da publicidade. Obteve um emprego na Salles. Em 84, trans­feriu-se à Young & Rubican. Em 85, à D PZ. Em 91, à Almap. Em 92, à Leo Bumett. Em 94, à DDB – Needham. No trajeto, sempre abraçado pela efi­ciência e pelos elogios, cuidou de contas de empresas como Bayer, Bradesco, Danone, Diadora, Erics­son, Honda, Itáú, Pepsico, Real, Su­zuki, Vigor, Yamaha.

O apelo do ofício da família, de to­do modo, começou a comovê-lo nos en­tornos de 88. À noi­te, depois da labuta na DPZ, ia ao Tatini da Batatais e enfur­nava-se na cozi­nha, “para absor­ver um pouco mais as bases do traba­lho” do pai. Fabri­zio dividiu os seus carinhos até o iní­cio de 97, quando Mário lhe propôs o resgate do restaurante da Urussuí, assoberbado com problemas de ge­rência e de controle de qualidade. Topou. E Fabrizio, apaixonado, explica porque: “Preparar uma refeição gos­tosa modifica as pessoas, elas se reumanizam” Numa reunião de família, com as suas três manas, todas do ra­mo – Paola, Thais e Andrea pediu apoio à sua decisão. Paola e Andrea, proprietárias de uma rotisseria, a Nastro Azzuro, comprometeram-se a criar alternativas novas de massas e de sobremesas. Thais aceitou asso­ciar-se a Fabrizio na condução da ca­sa, das 9h às 18h, locando a infra-estrutura.

O resultado do resgate eu testemunhei no último domingo, um recorde antológico no endereço, cerca de 250 pessoas felicíssimas no almoço do Dia dos Pais – isso num restaurante com 70 cadeiras. Pacientemente eu tive de esperar das 15h30 às 17h por uma mesa capaz de abrigar a minha petizada, bambinos dos 27 aos 4 anos. Valeu.

Do couvert clássico dos Tatinis. com o seu pão exclusivo e as suas vongole inebriantes, ao irresistível chantilly sobre os morangos frescos, vermelhíssimos, do dessert, o restau­rante sob Fabrizio, o neto, fez recor­dar-me dos momentos mais empol­gantes do restaurante do avô.

Ressurgiram, imponentes, pratos de tradição como as ostras e os ma­riscos à bourguignonne, os gnocchi ao sugo, as fettucdne com frutos do mar, os camarões Cabo Frio, a canv- bucu à santista, os escalopinhos ao molho madeira, o inabalável e glorio­so Diana Steak. Isso, sempre, sob os olhos atentos do rapaz, que até mes­mo se abalou a cometer mais uma pa- nelada de patê de berinjela no finalzi- nho da tarde – a afluência gigantesca de clientes havia devorado a provi­são normal da data

Homenaagem ao pai – Durante a refeição, Fabrizio mostrou-me um bi­lhete que idealizara para homena­gear o pai em seu dia. Fui aparente­mente infame. Surrupiei o bilhete. Que aqui comovidamente, divulgo, em alguns trechos:

“Meu pai, um coração dividido en­tre o amor juvenil, pela Itália, o pri­meiro, sempre eterno, e o amor ma­duro, desejado, a entrega a esta pá­tria, escolhida não por acaso. Lá, já não é italiana. Aqui afirma o seu sota­que, nunca será brasileiro. Mas, no Brasil, meu pai se fez grande, queri­do. Um professor e um paradigma no ofício herdado de seu avô, e de seu pai, um ofício que hoje tento hu­mildemente honrar. Nesta terra, on­de nasci, onde tive minha filha, e atendo à quinta geração de clientes em nossos restaurantes. Ganhei uma pátria, um outro sotaque – e o maior patrimônio que um homem po­de desejar um amor e uma cabana. Sou Tatini. E também sou Ribeiro. Ah, grazie mamma-”

Em duas décadas, a pequitita Giu­lia, a pimpollia de Fábrizio, com cer­teza se orgulhará equivalentemente dos seus nomes de família.