Os Tatini chegaram ao Brasil em 1953. Um casal, cinco filhos. Em Santos (1954) abriram o pri­meiro restaurante — “Don Fabrizio” — batizado com o nome do pai. Uma felicidade para a história da culi­nária brasileira. Os Tatini, família inteira, todos artistas, haviam crescido em meio aos talentos da universal cozinha florentina.

Se “Don Fabrizio” foi apreciado em Santos, ainda mais louvado foi quando estourou em São Paulo, 1958, na Alameda Santos. Havia chegado a vez dos filhos — o pai comandava da praia. Os meninos que haviam inaugurado a casa à beira-mar, agora mocinhos já dominavam a profissão: comidas deliciosas, atendi­mento de rosa na mão. Paladar e requinte. Rapazes bonitos, finos, encantavam a clientela. Cantava-se o clã Tatini em sol-maior, de boca em boca.

A transferência do “Don Fabrizio” para outros donos (1982) vinte e cinco anos após o lançamento da casa em São Paulo criou desapontamento geral. Não era para menos: já havia os viciados no Fettuccine à Tamandaré ou no Faisão Souwaroff, culinária requintada, dificilmente encontrável. Durou pouco, porém, a abstinência. Mário Tatini, capitão do time, reúne to­dos os irmãos: “Vamos voltar pro nosso ramo – é só o que nós sabemos fazer.” O nome da primitiva casa estava vendido. “Pois vamos pôr o sobrenome. Tatini era o pai, e nós todos somos Tatini também.” E nasceu na Rua Urussuí (Itaim) o primeiro restaurante TATINI (1983/julho). Poucos meses depois (novembro/83), na Rua Batatais, TATlNI ‘S. E a freguesia fiel, que já não se agüentava de saudade, voltou a ser feliz.

A novíssima casa, térreo de um “flat”, com jar­dins, tem estacionamento próprio. Está rodeada de árvores, onde canta um sabiá. Elegância sóbria, ao jeito japonês, beges e verdes em harmonia. Nas pare­des, quadros florais de Newton Mesquita, belos e deco­rativos. Com sua mulher, Gisela, o próprio Mário no atendimento: impecáveis,

O menu, mais contido, ainda deslumbra. O prato à mesa vai além, até perturba de tão bom. Nossa re­comendação: Posta de Peixe Marinada — valente pratada de frutos-do-mar, genial fusão de peixada brasileira com bouillabaisse francesa, verdadeiro achado. Mário tentava-me com o famoso faisão: “É preciso experi­mentar.” Ao vinho, tomate e carne, Spaghetti Firenze. Para amantes das massas, Paglia i Fieno, com ostras. Peixe à Singapura é com alcaparras, abacaxi, camarões.

Foram os Tatini que “inventaram”  em São Paulo: fogareiro à mesa, feitura do prato na frente do freguês. A tradição continua, marca registrada: Tournedos Tatini e outros filés, vários itens mais do palatável cardápio.

Sobremesas da casa, elogiadíssimas, nota 10 no teste. Proponho Torta de Maçã com Suspiro ou Quindim de Ovos de Ouro. Na cozinha, Zelão.

Artigo publicado na coluna de Paulo de Arruda Cotrim no jornal O Estado de São Paulo e reunido no livro “Paulo Cotrim à Mesa” de 1987