Folha de São Paulo, 2004

Acaba de ser lançado “A Receita de Mario Tatini”.

O livro, ágil e prazeroso, foi es­crito por Teresa Cristófani Barre­to a partir dos depoimentos de Mario e da família. Conta a saga dos Tatini, originários de Floren­ça, cujo patriarca, Fabrizio, che­gou ao Brasil em 1953. E, em par­ticular, conta a história de Mario, que veio meio a contragosto, em 54, trazendo nas malas dois foga­reiros. Ele ajudou o pai a lançar a cantina Don Fabrizio, em Santos; em 58, fundou o famoso Don Fa­brizio, em São Paulo; cozinhou ao vivo semanalmente nas redes de televisão dos anos 60  e, desde 0 começo dos 80, anima 0 restau­rante Tatini, na rua Batataes.

E claro, o leitor descobre, enfim, o segredo do “Fettucini à Don”, mas isso não é o essencial: o livro é tocante por outras razões.

Primeiro, é a história de uma imigração recente, da ultima on­da (se é que foi uma onda), aque­la dos que não vieram para subs­tituir a mão de obra escrava e, portanto, logo puderam praticar os dons tradicionais do imigran­te: a coragem e a vontade de arre­gaçar as mangas e de contribuir à vida do novo país.

Nestes dias, celebrando a me­mória de Celso Furtado, voltei a ler alguns de seus escritos. Ocor­reu-me que o destino do Brasil te­ria sido melhor se a onda que trouxe Mario Tatini não tivesse sido a última ou quase.

A imigração é inimiga da con­cepção (herdada do saque colo­nial) pela qual a riqueza de uma nação consiste nos produtos que é possível extrair de suas vísceras e de seus campos (do pau-brasil ao café, passando pelos diamantes e pela cana). O imigrante, que traz seus braços, aposta, ao contrário, na idéia de que a riqueza de uma nação vem do trabalho de seus ci­dadãos.

Se essa idéia tivesse prevalecido nos últimos 50 anos, talvez o país tivesse conseguido, nas palavras de Celso Furtado, “se voltar para dentro”, ou seja, crescer distri­buindo a renda e fomentando a demanda interna. Por quê? Pois bem, se a riqueza é um bolo doa­do por Deus ou pela natureza, fe­chemos as fronteiras e sejamos poucos na hora de dividir. E tanto melhor para quem tem a faca na mão e decide as porções. A coisa muda se o bolo parece depender dos esforços culinários de todos e da multiplicação dos doceiros.

A história dos Tatini me toca também porque é a história de vi­das dedicadas à arte de preparar os alimentos e servi-los com gra­ça. Certo, eles contribuíram bas­tante para que São Paulo se tor­nasse um grande pólo gastronô­mico. Mas há mais. Durante anos, viajei muito. Passei meu tempo em lugares que permane­ciam um pouco estrangeiros, por eu estar sozinho, sem minha mu­lher e os filhos, com quem com­partilhar a alegria de sujar pane­las e pratos. Ora, quando o lar nos faz falta, não tem nada que valha um restaurante onde a gente se sinta em casa. Reciprocamente, que a gente se sinta em casa tal­vez seja o sinal de um verdadeiro restaurante.

Ora, o livro é repleto de anedo­tas divertidas. Juscelino, por exemplo, tirava os sapatos embai­xo da mesa na hora de comer e não usava meias. Mas considere sobretudo as histórias do casal que brigou a tapas, da mulher abandonada que queria que al­guém a levasse para um hotel ou a das duas senhoras um pouco bê­badas que começaram a se beijar ardentemente. Não são casos es­tranhos. No restaurante, é fácil es­quecer os limites entre espaço pú­blico e espaço privado, pois trata- se do lugar público que celebra o âmago da intimidade: a mesa. E sinto para quem pensa que esse âmago seja a cama: uma família acaba quando ela não se reúne mais ao redor de uma mesa, não quando marido e mulher não se deitam mais juntos.

Não sei o que anima os que de­dicam a vida a “restaurar” os ou­tros, mas uma lembrança me aju­da a pensar. Quando eu morava em Paris, um dos meus amigos mais queridos era Jean Bergès, psicanalista e psiquiatra, que, aliás, poucos meses atrás, teve a péssima idéia de me deixar aqui na Terra sem sua companhia.  Quase a cada noite, Jean convida­va amigos e conhecidos para jan­tar na sua casa. Cardápio fixo: “foie gras” de ganso, fraldinha na chapa malpassada, salada verde, um camembert bem maduro, sor­vete de fruta, pão rústico e vinho de Cahors, sua regjão de origem.

Tanto Jean quanto Marika, sua mulher, terminavam de atender tarde e, na França, nada de em­pregados para pôr a mesa, preparar os alimentos e servir.

Um dia, perguntei a Jean onde ele achava a paixão necessária. Respondeu: “Nós (os psicanalis­tas) passamos 0 dia escutando queixas e oferecendo em troca pa­lavras. Nem sonhamos em poder dar a nossos pacientes algo que os faça felizes. Oferecer uma boa co­mida é minha compensação. En­fim, proporciono aos outros uma verdadeira satisfação”. Os convi­dados reagiam à altura: 0 prazer de receber uma boa comida tal­vez seja 0 mais antigo de todos, aquele que mais nos faz sentir amados e benquistos, ou seja, co­mo disse, “em casa”.

Agora, se você visitar o restau­rante de Mario, eis um prato que não está no cardápio: berinjela à italiana (não à siciliana, que é com queijo). São fatias de berinje­la ao forno, com tomate fresco, fragmentos de “aliei“, azeite de oliva e, obviamente, algo mais, que ele não revela.

Fonte: Jornal Folha de São Paulo – Ilustrada – 2004