“Fazer o quê? Temos que engordar”, Fagundes comenta, rindo. Assim que Tatini se afasta, o ator retoma a conversa. A primeira aproximação com seus personagens costuma ser “completamente intelectual”. Ele estuda o texto, a linguagem do autor e lê à exaustão sobre o assunto.

Para a montagem de “Vermelho”, Fagundes alimentou-se de textos sobre arte e visitas a museus em diferentes países. Essa bagagem serviu para dar a noção de verdade em cena, “pois a gente realmente sabe sobre o que está falando”. Teve ainda aulas de pintura para viver Rothko.

“Mais para aprender uma técnica do que como processo de criação. Tenho que pegar o pincel em cena. Se fosse um mágico, iria aprender seus truques. A peça não é baseada no ato de pintar. Fala de crescimento, conflitos de gerações e relação entre mestre e discípulo, em que o ato de pintar poderia ser substituído por qualquer outra coisa.”

Chegam os pastéis. Fagundes os encara, até descobrir qual é o de carne. Assim que dá a primeira mordida, avisa: “É bom, bem apimentado”, diz, agora recostando-se na cadeira e prestando mais atenção aos prazeres da mesa do que aos ponteiros do relógio.

Fagundes sugere que os espectadores cheguem com meia hora de antecedência, para apreciar uma pequena exposição montada no saguão do teatro. Há informações sobre movimentos da arte em voga na época – como cubismo, expressionismo abstrato e pop art – e sobre Rothko, Matisse, Rembrandt e outros artistas citados na peça.

Teatro tem a grande magia de ser ali, ao vivo. A energia, a forma de comunicação, a densidade do texto, é outra coisa
A finalidade da exposição é fazer com que o público possa apreciar a peça sem o mal-estar de não entender o que está sendo dito. No fim do espetáculo, os atores voltam à cena, já sem o figurino, para um bate-papo com a plateia, que lança questões as mais variadas. Querem saber o que é cenário, e até se o texto é improvisado a cada dia.

Fagundes costuma bancar seus trabalhos sem a ajuda de patrocínios. Para colocar “Vermelho” em pé, investiu por volta de R$ 1 milhão. “Empresto e depois corro atrás para pagar. É por isso que a gente depende tanto do público.”

Ele já bateu na porta de muita empresa para pedir dinheiro. Cansou. “Patrocínio é uma falácia. Não vem para quem pede, mas para quem os gerentes de marketing querem dar.” E para quem eles querem dar? “Atualmente, parece que para os musicais.”

Teatro já lhe rendeu bastante dinheiro, como quando esteve à frente da Companhia Estável de Repertório, nos anos 1980. Digo que assisti a “Cyrano de Bergerac”, um dos espetáculos da sua antiga companhia, e que me recordo de uma das músicas da peça. “Tão linda é Paris sob esse céu enluarado…”

O ator diz, sorrindo. “Você viu? Era bonito, não?” E cantarola a segunda estrofe da canção composta especialmente para aquela montagem: “Cyrano abre todo o coração e então…” Então? Então Cyrano é engolido por cumprimentos de uma mesa próxima.

O espetáculo contava com 36 atores, ficou um ano em cartaz e cobriu os gastos nos primeiros quatro meses. “Hoje em dia, não se ganha mais em teatro como nessa época. Os custos subiram e a divulgação ficou absurdamente cara”- ele lamenta, para em seguida abocanhar o último pedaço do pastel.

Sua carreira começou aos 17 anos, quando entrou para o Teatro de Arena, grupo dos anos 1950 e 1960, famoso pelo engajamento social. “Era uma turma extraordinária”, diz, lembrando dos mestres Gianfrancesco Guarnieri, Miriam Muniz, Augusto Boal, Paulo José.

Aos 20 anos, teve a chance de contracenar com Fernanda Montenegro. “Ver o ator em ação, ensaiando, em cena, estudando seu texto, ensina mais do que ver esse mesmo ator dando uma aula expositiva sobre seu processo de trabalho.”

Em 1969, Fagundes estreou em novelas na extinta TV Tupi, onde seu grande sucesso foi “O Machão”. O começo na Globo ocorreu aos 27 anos, na novela “Saramandaia”. Hoje, ele é um dos atores mais antigos e bem pagos da casa. Além da temporada com a peça “Vermelho”, em São Paulo (de quinta a domingo, no teatro Geo), Fagundes grava no Rio de Janeiro o remake de “Gabriela”, na pele do coronel Ramiro Bastos. Em agosto começa a filmar “Trabalhar Cansa”, com o diretor Marco Dutra.

Para compor o personagem em "Vermelho", Fagundes diz que levou 46 anos, seu tempo de profissão

O ator merece uma pausa para provar o bacalhau que acaba de chegar. “Hum, hum, está muito saboroso.” Pede mais uma rodada de pastéis e diz que é uma pena que muita gente só conheça seu trabalho através da televisão.

“Seria maravilhoso se todos fossem estimulados a ir ao teatro. Teatro tem a grande magia de ser ali, ao vivo.” Empolga-se, larga os talheres sobre o prato e, com as mãos libertas e no ar, enfatiza o que diz: “A energia, a forma de comunicação, a densidade do texto, é outra coisa”.

Ser espectador de uma peça de teatro é bem diferente de assistir à televisão esparramado no sofá. Básico? Não. Tem gente que atende celular no meio do espetáculo, levanta-se para esticar a coluna ou mesmo tira os sapatos, põe os pés sobre o palco “e ainda por cima mexe os dedinhos”.

Fagundes já sofreu um bocado com a falta de decoro da plateia. Inspirou-se nessa e em outras histórias para escrever a comédia “7 Minutos”. “Xinguei todos eles. Digamos que exorcizei”, conta, rindo.

O título da peça é uma referência ao padrão ágil da televisão, que prende a atenção por, no máximo, sete minutos, tempo aproximado de cada bloco de telenovela antes do comercial. A peça, disponível em DVD, começa com o ator interpretando Macbeth, de Shakespeare, quando é interrompido por toda sorte de inconvenientes.

“Outro dia, uma velhinha sentada na primeira fila estava comendo batata frita e fazendo aquele barulhinho. Parei de falar e olhei para ela. Sabe o que a mulher fez? Ofereceu batata pra mim!” – diz seu personagem em um dos trechos da peça, que ficou dois anos em cartaz.

Fagundes é de uma época, ele diz, em que só se entrava no cinema de terno e gravata. O cine Olido, no centro de São Paulo, tinha uma orquestra de quarenta músicos, que tocavam enquanto o público aguardava o início da sessão. Enfim, abaixava-se o fosso, abria-se a cortina e o filme começava. “Eu gosto disso.”

Chega outra rodada de pastéis, e por engano, ele morde o de pupunha e a repórter, o de carne. “Não faz mal, vamos trocar. Aceito o seu”- diz, resolvendo o impasse.

Nos primórdios do teatro, as luzes ficavam acesas o tempo inteiro, assistia-se ao espetáculo de pé. Cadeira era um luxo restrito à nobreza, e tudo era permitido: cachorros e galinhas passeando pela plateia e até pessoas duelando.

Aos poucos, artifícios foram sendo criados: fosso para a orquestra, cortina, luzes apagadas para dar início à sessão. “Todos esses acréscimos foram muito bem-vindos, porque ajudaram a criar um espaço mágico”, diz Fagundes.

Mas os rituais foram sendo abolidos. O teatro, uma arte que data de mais de dois mil anos, “está perdendo a liturgia”, ele constata com pesar. “Quando você começa a tirar o cenário, a luz, a cortina, que ajudavam a criar um espaço separado do resto do mundo, começa também a perder a relação de encantamento que uma peça pode criar.”

Há algum tempo, diferentes companhias de teatro têm usado espaços não convencionais para apresentar seus trabalhos, como ônibus em movimento, hospitais ou presídios. Nesses casos, não há encantamento?

“Há, sim, como os espetáculos lindos e arrepiantes que vi no Club Noir. Acho ótimo, mas desde que não seja só isso. Hoje, 90% das peças estão em teatros, onde não cabem mais de 50 pessoas. Não pode colocar cenário porque não cabe, não pode colocar luz.”

Assim que o garçom leva os pratos vazios, Fagundes lembra que o teatro nada mais é do que um jogo que implica parceria. O ator finge ser outro, conta uma história e a plateia se envolve, acompanha.

“É um clique. Você sabe que sou eu em cena, não estou te enganando, é uma brincadeira. Mas como você faz isso para pessoas que estão desatentas, postando no twiter coisas como ‘gente, estou no teatro!’?” O que será que não permite mais as pessoas jogarem? Este é nosso desafio nos dias de hoje: trazer esse cara para nossa realidade.”

O garçom chega com um fogareiro para preparar a sobremesa. “Olha aí, uma pequena liturgia.” Após uma pausa para sentir o aroma da mistura das frutas, do sorvete e do conhaque que se desprende da panela e impregna o ar, Fagundes lembra que, antigamente, as pessoas não se furtavam aos prazeres da mesa, e nem por isso viviam mal. Lembra que sua mãe cozinhava arroz e feijão com banha de porco e viveu quase 90 anos.

Fagundes foi “fumante profissional”, mas parou, “na raça”. “Hoje, a gente tem consciência de que algumas coisas podem fazer muito mal, de que o fim pode ser doloroso. Agora, fumo charuto.”

Ele frequenta a tabacaria Raniere, onde convive com muitos empresários, “leitores do seu jornal”. Outro dia, quis saber há quanto tempo não iam ao teatro. Pairou aquele silêncio. “Eles têm cultura, poder aquisitivo, mas não vão ver uma peça há cinco, dez anos.”

O sorvete regado com frutas quentes caramelizadas está agora bem à sua frente: “É hoje que vou ficar sem jantar” diz, esfregando as mãos. Dá a primeira colherada, deixa a sobremesa derreter aos poucos na boca antes de voltar a falar.

Fagundes compara uma temporada teatral a uma revolução. “Por quê? Falamos para pessoas que estão desacostumadas de ficar paradas, pessoas que estão num lugar já pensando no que vão fazer depois. É uma aceleração de vida que faz a gente ter a sensação de que o tempo está correndo muito rápido. Olha esta nossa refeição. Chegamos junto com pessoas que já comeram e foram embora. É louco o que fizemos, ficar horas conversando.”

Tomamos a segunda rodada de café e água (cortesia da casa, depois de fechada a conta) num cenário agora silencioso e vazio, ocupado apenas por nós e por um último funcionário encarregado de fechar a porta. Logo mais, Fagundes estará no teatro, aonde costuma chegar com duas horas de antecedência. “O ator tem que se isolar um pouquinho, deixar o mundo lá fora.”

O protagonista sai de cena. Logo será apenas Fagundes com ele mesmo.

Por Adriana Abujamra | Para o Valor, de São Paulo